Contos Escritos de Amigos

O curioso impertinente, de Miguel de Cervantes.

Curioso impertinente

O curioso impertinente.

 

 

Miguel de Cervantes (em “Dom Quixote”)

 

 

Em Florença, rica e famosa cidade de Itália, na província que chamam Toscana, viviam Anselmo e Lotário, cavalheiros ricos e principais, e tão amigos, que, por excelência e antonomásia, “os dois amigos” lhes chamavam todos.

 

Eram solteiros, moços, de igual idade, e dos mesmos costumes, o que tudo concorria para a recíproca amizade de entre ambos. Verdade é que Anselmo era algum tanto mais inclinado aos passatempos amorosos que Lotário; e este se deixava ir de melhor ânimo atrás dos recreios da caça. Quando porém acontecia, deixava Anselmo de seguir os seus gostos próprios para não faltar aos de Lotário; e Lotário deixava também os seus para acudir ao de Anselmo. Desta maneira, tão conformes andavam entre ambos as vontades, que não havia relógio mais infalível.

 

Andava Anselmo perdido de amores por uma donzela ilustre e formosa da mesma cidade, filha de tão bons pais, e tão boa ela mesma de sua pessoa, que assentou, com aprovação do seu amigo Lotário (sem a qual nunca fazia coisa alguma), em pedi-la por esposa aos pais; e assim fez. O mensageiro da embaixada foi Lotário; e tão a gosto do amigo concluiu o negócio, que em breve tempo se viu o nosso namorado em posse do seu enlevo, e Camila tão contente de haver alcançado a Anselmo por esposo, que não cessava de dar graças ao céu, e a Lotário, por cuja intervenção tamanho bem chegara a pertencer-lhe.

 

Os primeiros dias que foram todos de folgança, segundo o estilo das bodas, freqüentou Lotário, conforme ao seu costume, a casa do seu amigo Anselmo, procurando honrá-lo, festejá-lo e regozijá-lo em tudo que podia. Acabadas porém as bodas, e acalmada já a freqüência das visitas e parabéns, começou Lotário a escassear já de indústria as idas a casa de Anselmo, por lhe parecer, como é bem que pareça a todos os discretos, que aos amigos casados já se não hão-de as casas freqüentar tanto nem com tamanha intimidade, como enquanto viviam solteiros, porque, se bem que a verdadeira amizade não pode nem deve ser em coisa alguma suspeitosa, contudo tão delicada é a honra de um casal, que parece se pode ofender até dos próprios irmãos, quanto mais dos amigos.

 

Reparou Anselmo na menos freqüência de Lotário, e queixou-se grandemente dizendo que, se adivinhara que do casamento lhe havia de provir tal resfriamento nunca ele o teria feito; e que, se pela boa harmonia que entre os dois reinava enquanto ele era solteiro, havia alcançado tão doce título como era o serem chamados os dois amigos, não quisesse agora ele Lotário, só para fazer de circunspecto, e sem outro nenhum motivo, que tão famosa e agradável antonomásia se perdesse; e portanto lhe suplicava, se o termo de suplicar podia entre eles caber, que tornasse a ser senhor daquela casa, entrando e saindo como dantes, assegurando-lhe ele que a sua Camila se conformava em tudo, e sempre, com os desejos dele, e que, por lhe constar com quantas veras os dois se amavam entre si, andava até vexada de o ver agora tão arredio.

 

A todas estas e outras muitas razões de Anselmo respondeu Lotário com tanta prudência e juízo, que lhe tapou a boca, e concordaram que dois dias por semana, e nos dias santos, Lotário iria lá jantar; e, ainda que isto ficou estabelecido entre os dois, propôs Lotário como regra geral não fazer nunca senão o que visse ser conveniente à honra do amigo, cujo crédito ele antepunha até ao seu próprio. Dizia ele, e com razão, que um marido, a quem o céu concedeu mulher formosa, tanto devia reparar nos amigos que metia em casa, como ter tento nas amigas com quem sua mulher se dava, porque, muita coisa que se não faz nem se ajusta nas praças, nem nas igrejas, nem nas festas públicas e ajuntamentos semelhantes, muitas vezes concedíveis pelos maridos a suas mulheres, muita coisa de contrabando se conchava ou facilita em casa da amiga ou parenta em que há mais confiança.

 

Mais dizia Lotário ser necessário aos casados ter cada um deles algum amigo que lhe notasse os descuidos que no seu proceder se pudessem dar, porque às vezes acontece, em razão do muito amor do marido para com a mulher, ou não dar por certas coisas, ou não lhas dizer (para não magoá-la) que as faça ou as deixe de fazer, podendo umas e outras ser todavia importantes para o crédito ou descrédito de ambos eles; advertido assim pelo amigo, já o consorte poderia pôr cobro a tempo a não poucos males.

 

Mas onde se achará amigo tão discreto e leal como Lotário aqui o pinta? eu por mim não sei; desse feitio não vejo outro senão o próprio Lotário, quando tão cauteloso está atentando pela honra do seu amigo, e procurando ainda dizimar, aguarentar e diminuir os dias aprazados para as visitas, para não darem que falar aos ociosos e aos mirões vadios e praguentos, tantas entradas de um moço rico, gentil-homem, de claro nascimento e de tantas prendas como ele entendia possuir, na casa de uma dama tão formosa como Camila. Suposto com a bondade e força própria pudesse Camila pôr freio a todas as murmurações, contudo não queria ele nem por sombras pôr em dúvidas nem o seu crédito, nem o dela, nem o do amigo. Por isso os mais dos dias da combinação os ocupava e entrelinha noutras coisas que dava a entender serem-lhe impreteríveis, por modo que em suma, em queixas de um e desculpas do outro, se passavam por vezes horas de cada dia.

 

Uma vez andando ambos a passear por um prado fora da cidade, Anselmo disse a Lotário pouco mais ou menos o seguinte:

 

— Bem deves entender, amigo Lotário, que às mercês que Deus me há feito em dar-me tais pais como eu tive, e bens com mão larga, tanto dos que chamam da natureza, como dos da fortuna, não posso eu corresponder com gratidão que baste; ainda por cima de tudo mais me favoreceu Deus em deparar-me um amigo como tu, e uma esposa como Camila, duas jóias que eu aprecio, se não quanto devo, ao menos quanto posso. Apesar de tantas e tamanhas ditas, que seriam para o geral dos homens o cúmulo da felicidade, vivo eu no maior desconsolo e desesperação do mundo todo, porque de dias a esta parte entrou comigo, e me atormenta, um desejo tão estranho e tão raro, que ando até pasmado de mim mesmo; ralho comigo a sós, e rigorosamente me invectivo, mas em vão; é tal, que à minha própria consciência o procuro encobrir. Agora porém já não posso ter mão neste segredo; parece que desejo até fazê-lo de todos conhecido; de ti, de ti, primeiro que ninguém. Confio em que pelo esforço que hás-de fazer, como verdadeiro amigo, para me acudir, depressa me poderás livrar da angústia de tão longo silêncio; o meu contentamento atingirá, pela tua solicitude, ao auge a que pela minha loucura tem já chegado a minha impaciência.

 

Estava Lotário suspenso com todo este enigmático prólogo de Anselmo, sem poder adivinhar onde iria aquilo dar consigo, e por mais que revolvesse na imaginação que desejo poderia ser aquele tão tormentoso, feria sempre com as suas conjecturas longe do alvo. Para sair sem mais demora da agonia de tamanha incerteza, respondeu-lhe que era agravar manifestamente a sua muita amizade o andar excogitando rodeios antes de lhe declarar os seus ocultos pensamentos, tendo aliás certeza de que nele havia de achar em todo o caso ou bons conselhos ou remédios para cura, segundo o negócio fosse.

 

— Dizes muitíssimo bem — respondeu Anselmo; — confiado nisso te declaro, amigo Lotário, que a incerteza que me rala é a de andar cismando se porventura a minha Camila será em realidade tão boa e completa como eu imagino. Desta incerteza me não posso eu livrar se não for experimentando-a de maneira que a prova manifeste os quilates da sua bondade, como no fogo do crisol se apura a fineza do ouro, porque tenho para mim, meu amigo, que uma mulher não é melhor nem pior que outra, senão conforme a solicitam ou deixam de solicitar, e que só é deveras forte a que não fraqueia às promessas, às dádivas, às lágrimas e às contínuas importunações dos amantes obstinados. Pois que há que se agradeça — continuava ele — em ser uma mulher boa, onde nada a induz a ser má? Que admira que viva recolhida e toda sobre si aquela que não tem azo para soltar-se e que sabe que tem marido que em a apanhando no primeiro desvio é homem para lhe tirar a vida? portanto a que é boa por medo, ou por falta de ocasião, não a acho merecedora da estima em que terei a solicitada e perseguida, que saiu da provação com a palma de vencedora. Por todas estas razões, e por outras muitas que te pudera referir em abono do meu pensar, desejo que a minha esposa passe por estas dificuldades, e se acrisole resistindo a atrevimentos. Se ela sai, como espero, triunfante de tal conflito, ficarei tendo a minha ventura por incomparável; direi ter achado a mulher forte, de quem o sábio perguntou: “Quem a achará?” No caso contrário, o gosto de ver que não era errado o meu juízo compensará a pena de uma experiência tão custosa. Já sabes que por demais seria contrariares-me neste propósito; quero pois, amigo Lotário, que sejas tu próprio o que me ajudes na provação em que me empenho; eu me encarrego de te proporcionar as facilidades; por mim nada te há-de faltar de quanto seja necessário para solicitar a uma mulher honesta, honrada, recolhida e desinteressada. Além de outros motivos, que me obrigam a fiar de ti este cometimento, tenho o de saber que, se Camila for por ti vencida, nunca a sua rendição há-de chegar às últimas; pararás onde o dever to determine, e assim não haverei sido ofendido senão em desejos, e a minha desonra ficará sepultada no teu virtuoso silêncio, que tenho toda a certeza que, no tocante a mim, há-de ser eterno como o da morte. Se quiseres, pois, que eu tenha vida, que tal nome mereça, hás-de entrar nesta campanha de amores, não friamente nem por demais, mas com afinco, mas com verdadeira diligência, como eu desejo, e com a confiança a que se não pode faltar entre dois amigos como nós.

 

Tais foram as ponderações que Anselmo explanou, e que Lotário (a não ser o que acima se referiu ter ele dito) esteve escutando com a maior atenção, sem descerrar os lábios até ao fim. Como as viu concluídas, depois de estar encarando nele por um bom espaço, como se jamais tivera visto objeto para igual espanto, respondeu:

 

— Não me pode entrar na idéia, amigo Anselmo, que tudo isso que para aí disseste não passe de gracejo; aliás, não te houvera deixado prosseguir; se eu não escutasse, poupava-te todo esse desperdício de palavras. Está-me parecendo, que ou tu me não conheces, ou te não conheço a ti; engano-me; sei que és Anselmo, e tu não ignoras que eu sou Lotário; o mau é que já me não pareces o Anselmo de antes, assim como, segundo vejo, já também te não pareço o mesmo Lotário, que devia ser. As coisas que me tens dito não são do Anselmo meu amigo, nem as coisas que tu me pedes se deviam pedir a Lotário teu conhecido, porque os amigos verdadeiros hão-de provar os seus amigos e valer-se deles, como disse um poeta, usque ad aras; isto é, que não se devem valer da sua amizade em coisas que sejam ofensa de Deus. Se um gentio a respeito da amizade entendeu isto, quanto mais o não deve sentir um cristão, sabendo que a amizade de Deus por nenhuma da terra se há-de perder! e quando o amigo fosse tão imprudente que pospusesse os interesses do outro mundo ao serviço do amigo, nunca por coisas ligeiras o faria, senão só por aquelas em que a honra e vida do amigo se empenhassem. Ora dize-me tu, Anselmo: qual destas duas coisas, vida ou honra, se te acham em perigo, para que eu me aventure a comprazer-te, praticando uma coisa tão detestável como essa que me pedes? decerto que nenhuma; pelo contrário pedes-me, segundo eu entendo, que forceje para arrancar-te a honra e mais a vida ao mesmo tempo que a mim próprio, porque se hei-de procurar roubar-te a honra, claro está que te roubo também a vida, porque o homem sem honra é pior que um morto; e, sendo eu o instrumento, como tu queres que o seja, de tamanho mal teu, venho eu a ficar desonrado, e por isso mesmo também sem vida. Escuta, amigo Anselmo, e tem paciência de não me responderes enquanto não acabo de dizer o que me ocorre acerca do que desejavas; não faltará tempo para que tu depois me expliques e eu te ouça.

 

— Seja assim — disse Anselmo — podes falar à tua vontade. Lotário prosseguiu:

 

— Estás-me parecendo agora, meu Anselmo, uma espécie de arremedo dos mouros: aos mouros não se pode mostrar o erro da sua seita com as citações da Escritura, nem com razões que assentem em especulação do entendimento, ou se fundem em artigos de fé; não admitem senão exemplos palpáveis, fáceis, inteligíveis, demonstrativos, indubitáveis, como demonstrações matemáticas das que se não podem negar, como quando se diz: “Se de duas partes iguais tiramos partes iguais, as restantes serão também iguais.” E quando nem isto mesmo entendam de palavra, como de feito o não entendem, há-de se lhes mostrar com as mãos, e meter-se-lhes pelos olhos; e assim mesmo ninguém consegue convencê-los das verdades da nossa santa religião. No mesmo aperto me vejo eu contigo, porque esse teu desejo é tão sem caminho, e tão fora de toda a racionalidade que me parece será tempo perdido o que se gastar para te convencer da tua simpleza (que por enquanto lhe não quero dar outro nome); e quase que estou em deixar-te lá com o teu desatino, para castigo do teu mau desejo; mas vale-te a amizade que te professo; ela é que me não consente que te desampare em tão manifesto perigo de perdição. Para bem compreenderes isto, dize-me, Anselmo: não me confessaste que eu tinha de solicitar a uma recatada? persuadir a uma honesta? oferecer a uma desinteressada? cortejar a uma prudente? Disseste-mo, não há dúvida. Pois se tu sabes que tens mulher recatada, honesta e prudente, que mais queres? e se entendes que de todos os meus assaltos há-de sair vencedora, como sem dúvida há-de sair, que melhores títulos esperas dar-lhe, que os que já tem? ou que ficará ela sendo mais do que já é? Ou tu a não tens realmente pela que dizes, ou não sabes o que pedes. Se a não tens pela que dizes, para que é experimentá-la? Supõe que é má, e faze dela o que mais te agradar. Mas se é tão boa como crês, impertinente coisa será fazer experiência da verdade reconhecida, porque depois da experiência há-de ficar tão estimada como dantes era. Regra certíssima: tentativas em coisas de que antes nos pode vir prejuízo que proveito, são de entendimento boto e ânimo temerário, mormente quando para tais tentativas não há necessidade nem obrigação, e logo desde todo o princípio se conhece que se vai tentar uma loucura manifesta. As coisas difíceis empreendem-se por Deus ou pelo mundo, ou por ambos juntos. Por Deus as empreenderam os santos, propondo-se viver como anjos em corpo de homens. As que têm por alvo respeitos do mundo são as daquelas que passam tanta infinidade de águas, tanta diversidade de climas, tanta estranheza de gentes, para adquirir os chamados bens de fortuna. E as que se cometem ao mesmo tempo por Deus e pelo mundo são as dos soldados valorosos, que, apenas divisam no muro inimigo aberta uma pequena ruptura, como a pode fazer uma bala de artilharia, postergam temores, cerram olhos a toda a consideração dos perigos iminentes, voam com o desejo de acudir à sua fé, à sua nação e ao seu Rei, e se arrojam intrépidos por meio de mil contrapostas mortes que os aguardam. Estas coisas, sim, se costumam afrontar, porque é honra, glória e proveito que se afrontem, ainda que cheias de inconvenientes e perigos; e isso com que tu queres arrostar-te, nem te há-de alcançar glória de Deus, nem bens de fortuna, nem fama entre os homens, porque, ainda que saias afinal como desejas, nem por isso hás-de ficar nem mais ufano, nem mais rico, nem mais acrescentado; e, se não sais como estás almejando, cais na maior miséria que imaginar-se pode, porque então nada te aproveitará o pensar que ninguém sabe a desgraça que te sucedeu, porque bastará para te afligir e desfazer-te o sabere-la tu mesmo. Para confirmação desta verdade, quero repetir-te uma estância que fez o famoso poeta Luís Tansilo no fim da primeira parte das Lágrimas de S. Pedro; diz assim:

 

Cresce em Pedro o pesar, cresce a vergonha,

quando vê que no oriente o dia é nado;

ninguém o vê, mas tem de si vergonha,

pois em si sabe e sente que há pecado.

Não é mister que o mundo se interponha

testemunha de um crime a peito honrado;

ele próprio se acusa, aflige, e aterra,

bem que o vejam somente o céu e a terra.

Portanto de não ser notória a tua dor não te provirá isenção dela; terás, pelo contrário, de chorar continuadamente, senão lágrimas dos olhos, lágrimas de sangue do coração, como as derramava aquele simples doutor, de quem o nosso poeta nos conta que fizera a prova do vaso, à qual se recusou com melhor juízo o prudente Reinaldo; embora seja esta uma fábula poética, encerra todavia segredos morais merecedores de reflexão e imitação. Repara bem no que te vou agora dizer, e acabarás de convencer-te de quão errado é o teu intento. Dize cá, Anselmo, se o céu, ou um favor da fortuna, te houvera feito possessor legítimo de um finíssimo diamante, aprovado por quantos lapidários o vissem, confessando todos à uma que, em fineza, perfeição e quilates, era o mais que a natureza pudera ter feito naquele gênero, e tu mesmo assim o acreditasses por não teres prova alguma do contrário, seria justo que cedesses ao desejo de pegar naquele diamante, metê-lo entre uma bigorna e um malho, e ali, a poder de valentes marteladas, provar se era tão rijo e perfeito como se dizia? Suponhamos agora que, cedendo a esse desejo, o punhas em execução; se por acaso a pedra resistisse a tão néscia experiência, acrescentar-se-lhe-ia por isso a valia ou a fama? e, se se quebrasse, como poderia acontecer, não se perdia tudo? Perdia-se por certo, ficando o dono com a fama de orate no conceito de toda a gente. Amigo Anselmo, supõe que a tua Camila é aquele diamante, assim no teu conceito como no dos outros; será de bom juízo pô-la em contingência de se quebrar, visto que a permanecer na sua inteireza não pode subir a maior apreço do que já tem? e, se não resistisse, e, finalmente, falhasse, considera, enquanto é tempo, o que ela ficaria sendo, e com quanta razão te poderias queixar de ti mesmo, por teres sido o causador voluntário da sua perdição e mais da tua. Olha que não há jóia no mundo, que em valia se compare com a mulher casta e honrada, e que toda a honra das mulheres consiste na boa opinião em que são tidas. Já que a tua esposa é tal, que chega ao extremo de bondade que sabes, para que hás-de tu pôr esta verdade em dúvida? Olha, amigo, que a mulher é animal imperfeito, e não se lhe devem pôr diante obstáculos em que tropece e caia; pelo contrário devem-se-lhe tirar todos, e desempachar-lhe o caminho inteiramente, para que, isenta de pesares, corra até ao fim o seu caminho da perfeição. Contam os naturalistas que o arminho é um animalzinho de pêlo alvíssimo e que os caçadores, em querendo tomá-lo, usam do seguinte artifício: inteirados dos sítios por onde os arminhos costumam passar e aparecer, atascam-nos de lodo, depois acossam-nos naquela mesma direção; o animalzinho, tanto que percebe o lodo, estaca, e se deixa apanhar só pelo medo e horror de se enxovalhar, porque a liberdade e a vida valem para ele menos que a sua nativa candidez. A mulher honesta e casta é arminho, e é mais pura que a branca neve. Quem deseja que ela não perca a limpeza da castidade. mas a guarde e conserve até ao fim, há-de usar de outro estilo diverso do que se pratica na caçada dos arminhos; não se lhe hão-de pôr diante os lodos dos presentes, e serviços dos namorados importunos, porque talvez (ou mesmo sem talvez) não terá tanta virtude e força natural, que possa desajudada atropelar e transpor a salvo semelhantes tentações; o que é necessário é limpar-lhe o caminho, e pôr-lhe diante dos olhos o imaculado da virtude e o resplendor da boa fama. A mulher boa é na verdade como espelho de resplandecente cristal, que, ainda que puro, está sujeito a empanar-se e ficar turvo com o mais leve bafo. Com a mulher honesta há-de se ter o melindre que se tem com as relíquias, adorá-las sem lhes tocar; há-de se guardar e estimar a mulher boa, como se guarda e estima um formoso jardim, que está cheio de rosas e outras flores; o dono não consente que ninguém por ali passeie nem colha; basta que de longe, e por entre as gradarias, lhe gozem da fragrância e lindeza. Finalmente, quero repetir-te uns versos, que me estão lembrando, de uma comédia moderna que ouvi, e que me parecem frisar com estas verdades que te encareço. Estava um prudente ancião recomendando a outro, pai de uma donzela, que a recolhesse, que a guardasse, e que a encerrasse, e entre outras coisas disse-lhe isto:

 

É como o vidro a mulher;

mas não é mister provar

se se pode ou não quebrar,

porque tudo pode ser.

E é mais fácil o quebrar-se;

loucura é logo arriscar

a que se possa quebrar

o que não pode soldar-se.

Fiquem nisto, e ficam bem,

pois nisto o conselho fundo:

que se há Danais neste mundo,

chuvas de ouro também.

O que até aqui te levo dito, Anselmo, é só em referência a ti; agora justo é que me ouças também um pouco do que me interessa a mim. Se me achares prolixo, desculpa-me; tudo é preciso no labirinto em que te meteste e donde eu te devo arrancar. Tens-me tu em conta de amigo, e queres tirar-me a honra, coisa essa tão avessa da amizade! e não só pretendes isto, mas até queres que também eu ta roube a ti. Que me queres dela despojar, está claro, pois em Camila vendo que eu a requesto como pedes, certo está que me há-de ter por homem sem honra nem consideração, pois intento e faço uma coisa tão fora daquilo a que me obriga o ser eu quem sou, e a amizade que te voto. De que tu queres constranger-me a tirar-ta eu a ti, também não há dúvida, porque, vendo Camila que eu a solicito, há-de, de si para consigo, entender que alguma leviandade descobri eu nela, que me afoitou a apresentar-lhe os meus ruins desejos; e, tendo-se ela por desonrada, e pertencendo-te ela a ti, contigo fica também a sua desonra. Daqui nasce o que tão geralmente se costuma, isto é, que ao marido da mulher adúltera, posto que ele não sabia que ela o é, nem para tal haja dado ocasião, nem estivesse em seu poder impedir a sua desgraça, contudo o tratam com título ignominioso; e os que sabem ter a mulher caído já o ficam olhando de certa maneira, com os olhos de desprezo, em vez de compaixão, apesar de verem que chegou àquela desventura, não por culpa sua, mas só por gosto da sua depravada companheira. Quero agora dizer-te em que se funda a justa razão de ser desonrado o marido da mulher pecadora, ainda que ele não saiba que ela o é, nem de tal tenha culpa, nem haja sido participante, nem dado ocasião para ela o ser; e não te importunes de me ouvir, que tudo é para teu proveito. Quando Deus criou o nosso primeiro pai no paraíso terreal, diz a divina Escritura que infundiu um sono em Adão, e que, estando este a dormir, lhe tirou uma costela do lado esquerdo, de que formou a nossa mãe Eva; e, assim que Adão acordou e a viu, disse: “Esta é a carne da minha carne; e o osso dos meus ossos”; e Deus disse: “Por esta deixará o homem pai e mãe, e serão dois numa só carne”; e então foi instituído o divino sacramento do matrimônio, com laços tais, que só a morte os pode desatar; e tamanha força e virtude tem este milagroso sacramento, que faz de duas pessoas diferentes uma mesma carne; e ainda faz mais nos bons casados, que, ainda que têm duas almas, não têm mais de uma só vontade. Daqui vem que, sendo a carne da esposa a mesma do esposo, as nódoas que nela caem, ou os defeitos que se procuram, redundam na carne do marido, ainda que ele não haja, como dito fica, dado ocasião para aquele dano; porque, assim como a dor de um pé ou de qualquer membro do corpo humano se sente no corpo todo, por todo ele ser da mesma carne, e a cabeça padece o incômodo do ínfimo dedo do pé, se bem que não foi ela que o causou, assim o marido é participante da desonra da mulher, por ser uma mesma coisa com ela, e como as honras e desonras do mundo sejam todas, e procedam de carne e sangue, e as da má mulher sejam deste gênero, forçoso é que ao marido caiba parte delas, e seja tido por desonrado sem o saber. Repara portanto, Anselmo, no perigo em que te pões, querendo perturbar o sossego em que a tua boa esposa vive; repara por quão vã e impertinente curiosidade queres revolver os humores que tão sossegados estão no peito da tua casta esposa; adverte que o que te aventuras a ganhar é pouco, e o que perderás será tanto, que nem o pondero, por não ter palavras com que o encareça. Se porém tudo que tenho dito ainda não basta para te demover do teu mau projeto, procura outro instrumento para a tua desonra e desgraça; eu não o posso ser embora perdesse por isso a tua amizade, que é o maior prejuízo que posso imaginar.

 

Dito isto, calou-se o virtuoso e prudente Lotário, deixando Anselmo tão confuso e pensativo, que por um bom espaço não atinou palavra de resposta; ao cabo sempre lhe disse:

 

— Bem viste, amigo Lotário, com que atenção te escutei até ao fim; nos teus ditos, exemplos e comparações, reconheci a tua muita discrição, e o extremo a que chega em amizade; e confesso que, se não sigo o teu parecer, e vou atrás do meu, vou fugindo do bem, e correndo em pós o mal. Nisto devo-te parecer como certas achacadas, que apetecem comer terra, caliça, carvão e coisas ainda piores, repugnando à vista, quanto mais ao paladar; é logo necessário usar de algum artifício para que eu sare. Ora isto era fácil, começando tu, embora tibiamente e por fingimento, a cortejar a Camila, porque não há-de ser ela tão tentadiça que logo aos primeiros abalos dê com a honra do avesso. Para me contentar bastará isto; haverás cumprido o que deves à nossa amizade; dás-me a vida, e convences-me de que tenho salva a honra. Para te obrigar basta uma razão; e vem a ser que, estando eu, como estou, determinado a realizar esta experiência, não deves consentir em que eu vá dar conhecimento a outrern do meu desatino; com o que se poria em risco uma honra que tu não queres se aventure. Suponhamos que no juízo de Camila o teu conceito decai enquanto a solicitares; que importa isso!? logo que nela se reconhecer a pureza que esperamos, confessar-lhe-ás toda a verdade da nossa maquinação, e o teu crédito ficará inteiramente saneado. Já vês que, arriscando tão pouco e podendo com isso dar-me tão grande contentamento, deves fazê-lo sem reparar em mais objeções, porque, segundo já te disse, basta que principies, para eu te desobrigar logo de continuar.

 

Vendo Lotário a inabalável resolução de Anselmo, e não sabendo já novos exemplos, nem mais razões, com que lhe argumentar, e considerando ainda por cima na ameaça de ir expor a outrem o seu danado desejo, determinou preferir o menor mal, e satisfazer-lhe a vontade, esperando encaminhar as coisas de modo que Anselmo, sem prejuízo dos sentimentos de Camila, ficasse ao cabo satisfeito. Respondeu-lhe, portanto, não se abrisse com mais ninguém, e deixasse por sua conta o negócio todo, e que dariam princípio logo que lhe agradasse.

 

Abraçou-o Anselmo ca­ri­nho­sa­men­te, agra­de­cen­do-lhe a con­des­cen­dên­cia que ele reputava mercê, e das grandes. Assentou-se entre os dois que logo no dia seguinte se instauraria a campanha, dando o marido facilidades e abertas para o amigo poder conversar a sós com a sua Camila, entregando-lhe além disso dinheiros e jóias para dar-lhe e oferecer-lhe. Aconselhou-lhe que lhe levasse músicas, fizesse versos elogiando-a, e que, se o fazê-los lhe aborrecia, ele próprio estava pronto para lhos armar.

 

Lotário esteve por tudo na aparência, mas lá por dentro inabalável.

 

Com este acordo regressaram a casa de Anselmo, onde acharam Camila a esperar ansiosa e já desassossegada pela tardança do esposo, que nesse dia se demorara mais que de costume.

 

Foi-se Lotário para sua casa tão pensativo, por não saber como se haveria em tão impertinente negócio, como Anselmo ficava na sua satisfeitíssimo por ver já o seu barquinho na água. Levou o amigo a noite de vela, cismando no modo de enganar a Anselmo sem ofender a Camila.

 

Ao outro dia apareceu ao jantar, e foi bem recebido da consorte, que sempre o acolhia e regalava com a melhor vontade, por saber que outra tanta era a do seu esposo.

 

Findo o jantar, e levantada a mesa, disse Anselmo a Lotário que ficasse ali com a sua dona da casa, enquanto ele ia tratar de um negócio de muita pressa, de que não poderia voltar em menos de hora e meia. Camila rogou-lhe que se não fosse, e Lotário ofereceu-se para o acompanhar; Anselmo, porém, persistiu em que se deixasse estar, e o esperasse, porque tinham de tratar juntos objeto de importância; e a Camila recomendou que fizesse companhia ao amigo, até ele regressar. Em suma, tão perfeitamente soube representar a necessidade, ou nescidade, de sair, que ninguém adivinharia ser fingida.

 

Ficaram sós à mesa, a inocente mulher e o enleado amigo, porque a mais gente da casa se havia retirado para ir também jantar. Estava Lotário chegado à estacada em que o desejava o amigo, e tendo em frente o inimigo, formosura que só por si pudera vencer a um esquadrão de cavaleiros armados. Vede se Lotário não devia temer. O que ele fez foi pousar o cotovelo no braço da cadeira, com a mão aberta sobre a face; desculpando-se da descortesia, pediu à dama licença para repousar um pouco até que Anselmo voltasse. Respondeu-lhe ela que para descansar melhor ficaria nos coxins do salão, que na cadeira, e lhe rogou que os preferisse. Recusou Lotário o oferecimento, ficou onde estava e adormeceu.

 

Anselmo quando voltou, achando Camila no seu aposento e o comensal pegado no sono, entendeu que, por haver sido a sua demora excessiva, já os dois teriam tido tempo, não só de conversar, mas até de dormir. Já lhe tardava a hora em que o sonolento abrisse os olhos para saírem ambos de casa, e receber dele notícias da sua sorte. Correu-lhe tudo como ele queria. Lotário acordou, e logo saíram ambos juntos de casa.

 

Chegados à rua, perguntou alvoroçadamente o curioso o que desejava. Respondeu o outro que não lhe tinha parecido acertado descobrir tudo logo da primeira vez, e que por isso o que só tinha feito fora louvar a Camila de formosa e discreta, por lhe parecer este um bom exórdio para lhe ir ganhando pouco a pouco a vontade, dispondo-a a escutá-lo gostosa para a outra vez, que assim é que usava o demônio, quando queria tentar; alguém muito acautelado: representa-se anjo de luz, sendo-o ele de trevas, põe-lhe diante aparências inocentes, e só por fim é que descobre quem é, e não logra os seus intentos, senão se antes de tempo os não deixou descobrir.

 

Com tudo aquilo ficou Anselmo contentíssimo, e disse que todos os dias lhe proporcionaria iguais azos, mesmo sem sair de casa, porque de portas a dentro se podia entreter em coisas insuspeitas.

 

Sucedeu portanto correrem muitos dias que Lotário, sem dizer palavra a Camila, respondia a Anselmo que lhe falava, sem jamais poder alcançar dela uma pequena mostra sequer de que estaria por coisa que fosse má, nem sombra de esperança disso; pelo contrário, ameaçava-o de que, se não se deixasse daqueles ruins pensamentos, faria queixa a seu marido.

 

— Muito bem; até aqui — disse Anselmo — tem resistido às palavras; agora falta ver se também resiste a obras. Hei-de te entregar amanhã dois mil escudos para lhos ofereceres, e até dares; e outros tantos para comprares jóias, que em anzol para as mulheres são ainda melhor isca; todas costumam ser perdidas por louçainhas, principalmente as bonitas, embora castas; regalam-se de se apresentar bem e estadear-se de galas. Se também a isto resistir, dou-me por satisfeito, e não te importuno mais.

 

Respondeu Lotário que, uma vez que tinha começado a empresa, desejava levá-la até ao fim, posto já ia vendo que o fim seria ficar exausto de forças, e vencido.

 

No dia seguinte recebeu os quatro mil escudos e outras tantas confusões, por já não poder inventar novas mentiras. Mas com efeito sempre lhe disse que a mulher tão pouco se rendia às dádivas e promessas, como às palavras; que não havia mais que ver nem que lidar; era tudo tempo perdido.

 

Aconteceu porém que, tendo Anselmo deixado sós, como de outras vezes costumava, Camila e Lotário, se encerrou num aposento, e pelo buraco da fechadura esteve espreitando e ouvindo o que entre eles se falava. Notou que por mais de uma hora Lotário nem palavra deu, nem a daria em todo um século que ali estivessem; donde inferiu que tudo quanto o amigo lhe relatara das esquivanças de Camila não passava de mera falsidade. Para maior certeza saiu do quarto, e, chamando Lotário à parte, lhe perguntou que novas havia, e de que humor se ia achando a mulher.

 

— Nessa matéria — respondeu Lotário — já não torno a perder tempo; dá-me sempre umas respostas tão ásperas e sacudidas, que já me não atrevo a dizer-lhe mais nada.

 

Lotário, Lotário — disse Anselmo — que mal correspondes ao que me deves, e à confiança que em ti punha! saberás que te estive excogitando por onde se introduz esta chave; nem meia palavra disseste a Camila; do que eu infiro que nem sequer principiaste ainda. Sendo assim, como sem dúvida o é, para que me enganas, e me privas dos meios que eu podia ter para realizar os meus desejos?

 

Mais não disse; mas bastou isso para deixar a Lotário vexado e confuso, por ter sido apanhado em flagrante mentira; pelo que jurou a Anselmo que daquela hora em diante ia tomar tanto a peito o satisfazer-lhe o empenho, como ele próprio o reconheceria, já que se divertia a espreitá-los; seria necessário empregar grandes diligências para lhe desvanecer de uma vez todas as suspeitas.

 

Fiou-se naquelas palavras Anselmo; e, para o deixar mais à sua vontade, resolveu-se a ausentar-se de casa por oito dias, que iria passar em companhia de outro amigo seu, morador numa aldeia não longe da cidade. Este (por combinação entre os dois) lhe mandou pedir com grande empenho que o fosse visitar; com o que justificada ficava a sua partida aos olhos de Camila.

 

— Desgraçado e imprudente Anselmo, que é o que fazes? — disse Lotário — que é o que projetas? riscas a tua desonra, traças e ocasionas a tua perdição. Tua esposa é boa; possui-la quieta e sossegadamente; ninguém te dá sobressaltos; os pensamentos dela não saem do secreto de sua casa; és tu o seu céu na terra, o alvo dos seus desejos, a satisfação de todos os seus gostos, e a regra de todas as suas ambições; a ti e ao céu é que ela unicamente almeja com prazer. Se nesta mina de honra, formosura, honestidade e recolhimento, achas sem nenhum trabalho toda a riqueza que mais se pode desejar, por que te desassossegas a cavar a terra mais fundo em busca de novas betas de tesouro novo e nunca visto, pondo-te em perigo de te desabar tudo (porque enfim o tudo afinal só assenta nos esteios da natureza frágil)? A quem busca o impossível justo é que até o possível se lhe negue. Melhor do que eu o disse um poeta nos seguintes versos:

 

Procuro na morte a vida;

saúde na enfermidade;

no cárcere, liberdade;

no encerramento, saída;

no traidor fidelidade.

Mas minha sorte, de quem

não posso esperar bem,

ajustou co’o céu terrível,

que, pois lhe peco o impossível,

nem o possível me dêem.

No dia seguinte lá se foi Anselmo para a aldeia, deixando dito a Camila que, durante a sua ausência, viria Lotário olhar por sua casa, e jantar com ela; que tivesse cuidado de o tratar como a ele próprio. Com esta ordem do marido afligiu-se a esposa, como honrada e prudente que era, e lhe pediu refletisse em que durante a sua ausência não parecia bem que pessoa alguma ocupasse o seu lugar; e que, se o fazia por não ter certeza dela saber governar-lhe a casa, experimentasse por aquela vez, e reconheceria que até para mais era a sua capacidade.

 

Anselmo replicou ser aquele o seu gosto, e que a ela só competia abaixar a cabeça e obedecer-lhe. Camila prometeu que assim o faria, mas não por vontade sua.

 

Partiu Anselmo.

 

No outro dia veio a casa Lotário; foi recebido pela dama com amabilidade e todo o comedimento; nunca ela se pôs em parte em que se pudesse ver com o hóspede; andava sempre rodeada de seus criados e criadas, especialmente de uma aia sua chamada Leonela, a quem muito queria, por se terem criado ambas juntas desde meninas na casa paterna, donde a trouxe consigo quando se casou.

 

Nos três primeiros dias nunca Lotário disse nada, ainda que bem o podia quando se levantava a mesa, e os servos se iam todos à pressa para jantar, porque assim lho tinha a ama determinado; à sua Leonela recomendava que jantasse primeiro que os senhores, e nunca lhe saísse de ao pé dela. Leonela, porém, que trazia o pensamento em coisas mais do seu gosto, e necessitava daquelas horas para os seus recreios, nem sempre executava à letra a recomendação, antes muitas vezes deixava sós os dois como se as suas instruções fossem essas precisamente.

 

Não obstante estes azos todos, o portamento honesto de Camila, a compostura do seu semblante eram tais, que Lotário emudecia. Mas se as virtudes de Camila tolhiam a voz do comensal, por outra parte mais perigosas por isso mesmo se tornavam para eles ambos; calavam, sim, a língua; mas o pensamento lá ia por dentro discorrendo e contemplando um por um todos os extremos de bondade e formosura da vigiada. Sentir-se-ia ali enamorado um colosso de mármore; quanto mais um coração de carne!

 

O tempo em que lhe podia falar, empregava-o em olhar para ela, e reconhecia quanto era credora de mil amores.

 

A continuação destas mudas contemplações começou pouco a pouco a enfraquecer os respeitos do amigo para com o ausente; esteve muitas vezes para sair da cidade, e ir-se para onde nunca mais Anselmo o visse a ele, nem ele a Camila; porém o prendia o próprio deleite que sentia só em vê-la. Forcejava e teimava consigo mesmo para atenuar e extinguir de todo o encanto de olhar para Camila; culpava-se em consciência de tamanho desatino, chamando-se mau amigo e até mau cristão. Se com Anselmo se comparava, o final era sempre dizer que maior fora a loucura e confiança de Anselmo, do que era a deslealdade dele próprio; e tão boa desculpa tivesse ele para Deus como a havia de ter para com os homens.

 

De feito a lindeza e bondade de Camila, ajudadas das facilidades que o ignorante marido lhe facultava, deram com a lealdade de Lotário em terra, e sem já se lembrar de mais coisa alguma senão do seu gosto, depois de três dias de ausência de Anselmo, nos quais esteve em guerra aberta contra os próprios desejos, começou de requebrar a dama, mas tão perturbado e com uns dizeres tão apaixonados, que a deixou suspensa e tão sobressaltada, que não fez outra coisa senão levantar-se e recolher-se ao quarto sem uma única palavra de resposta.

 

Com este desabrimento não esmoreceu em Lotário a esperança, irmã gêmea e sempre companheira do amor; a fugitiva tornou-se ainda mais adorada. Ela, porém, por ter descoberto o que nunca esperava, não sabia que fizesse; entendendo não ser prudente nem bem feito dar ocasião a renovar-se o atrevimento, determinou enviar naquela mesma noite um criado seu com um bilhete a Anselmo, e assim o fez. O bilhete dizia o seguinte:

 

“Tem-se por dizer que nem exército sem general, nem castelo sem castelão; e eu digo que ainda há coisa pior que essas duas; e é: mulher casada e moça sem o seu marido ao pé, salvo havendo para isso justíssimas razões. Acho-me tão mal sem vós, e tão fraca para resistir a esta ausência, que, se não vindes depressa, ir-vos-ei esperar em casa de meus pais, ainda que deixe esta vossa sem guarda. A que vós me deixastes, se é que ficou com tal título, creio que olha mais pelos seus gostos, que pelos vossos interesses. Como sois discreto, não tenho mais que vos dizer, nem devo.”

 

Por esta carta entendeu Anselmo que Lotário tinha já começado as operações, e Camila se houvera à medida dos seus desejos. Sobremodo alegre de tal mensagem, mandou a Camila resposta de palavra, que de modo nenhum saísse de casa, porque ele com muita brevidade tornaria.

 

Admirou-se Camila com tal resposta, e ficou à vista dela ainda mais confusa do que já estava. Não se atrevia a permanecer em sua casa, nem a ir-se para a de seus pais. Ficando, arriscava a sua honestidade; indo-se, desobedecia ao consorte. Afinal resolveu o pior, que foi ficar, sem evitar a presença de Lotário, para não dar suspeitas à criadagem; arrependia-se de ter escrito daquele modo ao esposo, receando dar-lhe idéias de que Lotário teria visto nela alguma desenvoltura, que o animasse a faltar-lhe ao respeito.

 

Enfim, fiada na bondade própria, entregou-se nas mãos de Deus, firme em resistir com o silêncio a quantas declarações e instâncias lhe pudessem sobrevir; e, calando tudo ao marido, para o forrar a alguns trabalhos, já andava até procurando maneira com que desculpar Lotário perante Anselmo, quando este lhe pedisse a explicação do bilhete.

 

Com estas idéias mais honradas que acertadas ou proveitosas, esteve no outro dia escutando a Lotário, o qual tanto carregou a mão nas instâncias, que a firmeza de Camila principiou a titubear, e bastante teve a sua honestidade que fazer para proibir aos olhos alguns sinais de amorosa compaixão que no peito lhe haviam despertado as lágrimas e súplicas do seu idólatra. Tudo aquilo ia ele notando, e abrasando-se cada vez mais.

 

Afinal pareceu-lhe que era mister apertar o combate à fortaleza, aproveitando o tempo que o marido para isso lhe deixava. Acometeu-a pela presunção, exaltando-lhe a formosura (não há coisa que mais depressa arrase as torres da vaidade das formosas, que a adulação); e para abreviarmos: com tanta habilidade soube minar aquela virtude, que, de bronze que a dama fora, não tivera remédio senão cair. Chorou, rogou, ofereceu, adulou, porfiou e fingiu, com tantos afetos, e tantas mostras de paixão, que lá se foi o recato de Camila; logrou-se o mais suspirado e mais inesperado triunfo.

 

Rendeu-se Camila; sim, Camila rendeu-se. Mas que admira, se a amizade de Lotário já também se tinha rendido? claro exemplo de que para se vencer a paixão amorosa não há outro remédio senão fugir-lhe, e que ninguém se deve tomar a braços com tão possante inimigo, porque só com forças divinas se venceriam as suas, com serem humanas.

 

Leonela soube a fraqueza de Camila; e como lha haviam de encobrir os dois namorados e desleais na amizade?

 

Não quis Lotário confessar a Camila qual fora o projeto de Anselmo, nem que fora ele mesmo quem lhe abrira passo para chegar àquele ponto, porque não queria que ela tivesse em menos apreço o seu amor, e imaginasse que sem premeditação, e só por uma fatalidade do acaso a havia perseguido.

 

Regressou Anselmo passados poucos dias, e não pôde perceber o que naquela casa faltava, que era de tudo o que ele mais estimava. Foi-se logo a visitar Lotário, encontrou-o, abraçaram-se e pediu-lhe novas da sua vida ou morte.

 

— As novas que te posso dar, amigo Anselmo — disse Lotário — são que tens uma mulher exemplar, o non plus ultra das honradas. As palavras que lhe disse levou-as o vento; os oferecimentos desprezaram-se; os presentes enjeitaram-se; e de algumas lágrimas que fingi fez-se zombaria despropositada. Em suma: assim como é o símbolo de todas as graças, é o santuário da honestidade, do comedimento, do recato e de todas as virtudes feminis. Retoma os teus dinheiros, amigo, eles aqui estão; não me foi necessário tocar-lhes; Camila não se rende a coisas tão baixas. Alegra-te, Anselmo, e deixa-te de mais experiências; uma vez que passaste a pé enxuto o mar das suspeitas que se podem e devem ter a respeito das mulheres, não tornes lá nem tomes outro piloto para confirmar a bondade e fortaleza do navio que o céu te deu para atravessares as ondas deste mundo; faze de conta que já estás em porto seguro, deita a âncora, e deixa-te ficar até que te venham obrigar pela dúvida que a ninguém se perdoa.

 

Certíssimo ficou Anselmo com estas ponderações de Lotário; creu delas como se de um oráculo lhe viessem; contudo sempre o exortou a prosseguir na empresa, ainda que não fosse senão por curiosidade e passatempo, embora as diligências daí avante fossem menos afincadas; o que só lhe exigia é que fizesse alguns versos em louvor dela com o nome de Clóris, que ele tomava a si o persuadir a Camila andar ele enamorado de certa dama, a quem disfarçara assim o verdadeiro nome, para não faltar ao respeito que à sua honestidade se devia, e que, se não queria tomar a si esse trabalho de fazer os versos, ele Anselmo os escreveria por ele.

 

— Não é preciso — disse Lotário — não me são as musas tão inimigas, que algumas vezes por ano me não visitem. Dize tu a Camila o mesmo que lhe disseste dos meus amores fingidos; que os versos eu os farei; não serão dignos do objeto, mas hão-de ser os melhores que eu puder.

 

Assim ficaram conchavados o impertinente e o traidor. Entrando em casa, perguntou Anselmo a sua mulher (o que ela se admirava de ele lhe não ter ainda perguntado) o motivo por que lhe tinha mandado o escrito.

 

Respondeu-lhe ela que se lhe havia figurado que Lotário encarava nela um tanto mais descomedidamente que dantes, enquanto ele estava em casa, mas que ao presente já estava certa de que não fora senão cisma sua porque Lotário fugia de vê-la e achar-se com ela a sós.

 

Respondeu-lhe Anselmo que lá por essa parte podia estar descansada, porque ele sabia que Lotário andava doido por uma donzela das principais da cidade, a quem celebrava debaixo do nome de Clóris, e, ainda que o não soubera, nada havia que recear da verdade de Lotário e da muita amizade que os unia. Se Camila não soubera de Lotário mesmo serem imaginários aqueles amores de Clóris, e de propósito inventados por ele para poder a seu salvo empregar alguns momentos vagos nos louvores de Camila, sem dúvida estaria caída na desesperada rede dos ciúmes; mas, por andar já advertida, livrou-se da estranheza do sobressalto.

 

Outro dia, achando-se os três à sobremesa, rogou Anselmo a Lotário que recitasse alguma coisa das que tinha composto à sua dileta Clóris, que sendo, como era, desconhecida de Camila, podia afoitamente falar dela quanto quisesse.

 

— Embora a conhecesse — respondeu Lotário — por que havia eu de encobrir nada? Quando um amante louva a sua dama de formosa, e ao mesmo tempo a censura de cruel, nem por sombras a desdoura. Como quer que seja, o que sei dizer é que ainda ontem fiz um soneto à ingratidão desta Clóris, o qual diz assim:

 

SONETO

 

Da umbrosa noite no silêncio, quando

meigo sono refaz os mais viventes,

eu vou meus martírios inclementes

aos céus e à minha Clóris numerando.

Quando o dia os seus raios vem mostrando

dentre as rosas d’aurora auri-esplendentes

com suspiros e lástimas ferventes

vou as teimosas queixas renovando.

Se doura o sol a prumo o térreo assento,

não me dissipa as trevas da agonia;

dobra-me o pranto, aumenta-me os gemidos.

Volve a noite, e eu com ela ao meu lamento.

Ai! que sorte! implorar de noite e dia,

ao céu piedade, e à minha ingrata ouvidos.

Pareceu bem a Camila o soneto, e a Anselmo ainda melhor. Este louvou-o, e disse que passava de cruel a dama que a tão claras verdades não correspondia.

 

— Então — disse Camila — tudo que sai da boca a poetas namorados se há-de logo ter por verdade?

 

— Como poetas não a dizem — respondeu Lotário — mas como namorados, nunca a chegam a dizer inteira.

 

— Nisso não há dúvida — replicou Anselmo, tudo para mais acreditar os pensamentos de Lotário no conceito de Camila, tão desprecatada do artifício de Anselmo, como já apaixonada por Lotário, e assim com o gosto do próspero andamento que as suas coisas lhe estavam dando, e por saber que os desejos e escritos do poeta a ela unicamente se referiam, por ser ela a verdadeira Clóris, lhe pediu que, se tinha mais algum soneto ou outros versos, os dissesse.

 

— Tenho outro soneto, mas parece-me inferior ao primeiro; estais a tempo de os comparar; é o seguinte:

 

Bem sei que morro, pois não sendo crido,

forçoso é que me acabe o desconforto;

podes ver-me a teus pés, ingrata, morto,

mas nunca de adorar-te arrependido.

Poderei ver nos páramos do olvido

que a vida, a glória, o bem, foi tudo aborto;

teu semblante conquistando um porto

no ardente coração resta esculpido.

Vem comigo, relíquia, ao transe duro

a que me há-de levar esta porfia,

que em seu próprio rigor se fortalece.

Ai de quem voga à toa em pego escuro

sem roteiro, sem bússola, sem via!

astro não vê, nem porto se lhe of’rece.

Louvou Anselmo também este segundo soneto; ia acrescentando, a elo e elo, a cadeia da sua desonra, pois quanto mais lhe crescia a afronta, mais ele se tinha por glorificado. Quantos degraus Camila descia para o ínfimo desprezo, tantos subia na opinião do néscio marido para as eminências da virtude e da boa fama.

 

Sucedeu que, achando-se uma vez, como outras muitas, Camila com a sua aia, lhe disse:

 

— Estou envergonhadíssima, minha amiga Leonela, de ver quão pouco me tenho sabido respeitar; nem sequer fiz com que Lotário só a poder de tempo alcançasse este completo predomínio sobre a minha vontade. Estou receando que ele chegue algum dia a desestimar a minha facilidade, a minha leveza, esquecido já da violência com que me tornou impossível o resistir-lhe.

 

Ai minha senhora — respondeu Leonela — por coisas tão poucas não se esteja agora penando; darmos depressa o que temos de dar não tira nem põe nada ao valor da coisa, quando ela de si o tem; até se costuma dizer que o dar depressa é dar duas vezes.

 

— E também se costuma dizer — disse Camila — que o que pouco custa pouco se estima.

 

— Isso não é regra — respondeu Leonela; — o amor, segundo já ouvi dizer, umas vezes voa e outras anda; com este corre; com aquele vai devagarinho; a uns entibia; a outros abrasa; a uns fere, e a outros mata; no mesmo instante começa e acaba o seu desejar. Pela manhã pôr cerco a uma fortaleza; e à noite vê-la já vencida, porque não há força que lhe resista. Sendo assim por que se admira ou se intimida, se outro tanto deve ter acontecido a Lotário? se a ausência de meu amo foi afinal de contas quem os rendeu a ambos? Nesses poucos dias era forçoso que se concluísse tudo, em vez de se porem a dar tempo ao tempo à espera de que o senhor Anselmo voltasse, deixando a obra imperfeita. Nisto de amores quem perde a ocasião, perde a ventura. São coisas que eu sei mais de experiência que de ouvido e algum dia lho contarei, senhora, porque eu também sou de carne, e ainda também me ferve o sangue; e mais a minha senhora não se entregou tão de repente como isso; viu primeiro nos olhos, nos suspiros, nas falas, nas promessas e nos mimos de Lotário toda a sua alma, e quanto era merecedor de se lhe querer bem. Sendo assim, desterre essas fantasias de escrúpulos; tenha a certeza de que Lotário a estima tanto, como a senhora a ele, e anda todo ancho e satisfeito de a ver caída no laço, porque isso mesmo o exalta ainda mais no seu próprio conceito; e não só tem os quatro SSSS, que dizem ser precisos a todos os namorados, mas até o a b c inteiro. Ora repare, e eu lho digo de cor; e ele é, segundo eu vejo e me parece:

 

AGRADECIDO

BOM — CAVALHEIRO

DADIVOSO — ENAMORADO — FIRME

GALANTE

HONRADO — ILUSTRE

LEAL

MOÇO — NOBRE — ÓTIMO

PRINCIPAL — QUANTIOSO

RICO

e os SSSS que dizem; e depois

TÁCITO — VERDADEIRO

o X é que não lhe quadra por ser letra áspera;

o Y já lá fica no I; o Z

ZELADOR DA HONRA DA SUA DAMA.

Riu-se Camila do abecedário da sua aia, e teve-a por mais prática em pontos de amor do que ela se inculcava. Ela porém sem hesitações lho confessou, declarando-lhe que entrelinha amores com um mancebo grave da mesma cidade. Com aquilo se turvou Camila, por temer que por ali é que a sua honra poderia vir a perigar. Apertou-a para saber se as suas conversações não passavam adiante; ela com todo o desembaraço lhe respondeu que sim, passavam muito adiante. Isso é já coisa velha e sabida, que os descuidos das senhoras tiram a vergonha às criadas, e que estas, em vendo as suas amas escorregar, pouca dúvida põem em coxear, e pouco se lhes dá que o saibam.

 

Camila o mais que pôde foi pedir a Leonela que não dissesse nada a respeito dela ao que dizia ser seu rapaz, e tratasse as coisas com segredo para não chegarem ao conhecimento de Anselmo e de Lotário. A aia porém respondeu que assim o faria; fê-lo porém de modo que os receios da senhora se realizaram; a desonesta e atrevida Leonela, vendo que o procedimento da ama não era já o mesmo que dantes, atreveu-se a receber dentro em casa o seu amante, porque, ainda que a senhora o visse, já se não atrevia a descobri-lo. Conseqüências tristes dos desmanchos das senhoras, que se fazem escravas das suas próprias servas, e se obrigam a encobrir-lhes as suas desonestidades e vilezas, e assim aconteceu a Camila, que, ainda que viu muitas vezes estar Leonela num aposento de sua casa com o galã, não só se não atrevia a ralhar-lhe, mas lhe dava lugar para que o recatasse, e a livrava por todos os modos de ser percebida do marido. Apesar de todas as suas cautelas, não pôde contudo evitar que Lotário um dia, ao romper de alva, percebesse a saída do contrabando. Não conhecendo quem era, pensou primeiro que seria avejão; mas, notando-lhe o caminhar, o embuçar-se e o encobrir-se, trocou logo a sua idéia supersticiosa por outra, que para todos se tornaria perdição, se Camila a não remediara.

 

Entendeu Lotário que o homem, que tão antemanhã saía daquela casa, não havia nela entrado para Leonela; nem pela idéia lhe passou que tal Leonela existisse. Acreditou sim, que, tendo Camila sido fácil e leviana em proveito dele, também o podia ser para algum outro. São estas umas crescenças que traz consigo o mau comportamento duma mulher que perde a boa fama: aquele mesmo a quem se entregou, depois de muito rogada e persuadida, crê que mais facilmente ainda se entregará a outro; e qualquer suspeita se lhe afigura logo certeza. Nisto parece haver falhado em Lotário de todo em todo o bom juízo. Varreram-lhe da memória todos quantos resguardos até ali lhe aconselhava a prudência. Sem atinar em expediente algum, que fosse, senão bom, pelo menos razoável, sem mais nem mais, antes que Anselmo se levantasse, impaciente e cego da súbita raiva que o tomara, morrendo por vingar-se de Camila naquele caso inocente, foi-se ter com o marido e lhe disse:

 

— Saberás, meu Anselmo, que ando há muitos dias em guerra comigo, para te não revelar o que já te não posso esconder por mais tempo: sabe que a fortaleza de Camila está já rendida e sujeita a quanto eu dela pretender. Se tardei em te descobrir esta verdade, foi só para me certificar primeiro se não seria aquilo nela mera leviandade passageira, ou talvez propósito de reconhecer bem ao certo se eram ou não sinceros os galanteios que lhe eu fazia, já se sabe por tua autorização. Mas sempre me parecia que o dever dela, se ela fosse a que pensávamos, seria ter-te já dado conta das minhas perseguições. Como tarda em fazê-lo, deixa-me crer que são verdadeiras as promessas que me fez, de que, para a primeira vez que te ausentes da tua casa, está pronta a ir falar comigo na recâmara dos teus móveis fora de uso (e era lá realmente que ela lhe costumava falar). Não quero que te precipites a vingar-te; por ora o pecado só existe no pensamento; e poderia acontecer que, no que vai daí até à realização, Camila caísse ainda em si e se arrependesse. Como tu sempre, ou em todo ou em parte, tens aceitado os meus pareceres, segue também este que te vou dizer, para que sem engano nem temeridade só faças o que vires ser mais acertado. Finge que te ausentas por dois ou três dias, como de outras vezes, e esconde-te na tua recâmara; é fácil com os panos da colgadura e as mais coisas que por ali há; então verás pelos teus próprios olhos, e eu pelos meus, quais são as verdadeiras tenções dela. Se forem de mulher perdida, como é de temer, tu em segredo, e com discrição, poderás vingar-te e puni-la.

 

Ficou Anselmo absorto com a revelação de Lotário, quando mais livre se cuidava já de semelhantes malefícios, porque tinha já a mulher por desenganadamente vencedora das diligências do amigo; fazia-se já nos alvoroços do triunfo. Esteve por largo espaço taciturno olhando para o chão sem pestanejar; e por fim disse:

 

— Fizeste, meu Lotário, o que eu esperava da tua lealdade; em tudo seguirei o teu conselho; faze o que te aprouver e guarda o segredo que deves em caso tão imprevisto.

 

Prometeu-lho Lotário; e, apenas dele se apartou, arrependeu-se inteiramente de quanto lhe havia dito. Que néscio não tinha sido expondo Camila a uma vingança, que ele por si mesmo bem podia tomar com menor crueldade, e menos ignominiosamente! Maldizia a sua doidice, culpava a sua precipitação, e não sabia modo para desfazer o que havia feito, ou sair de tamanho aperto por qualquer via razoável. Por fim resolveu informar de tudo a Camila; e como lhe não faltava aberta para o efetuar, naquele mesmo dia a achou só. Ela, vendo que lhe podia falar, lhe disse:

 

— Sabereis, amigo Lotário, que tenho cá dentro uma paixão que dá cabo de mim, e milagre será se o não consegue. A tal auge é chegado o desavergonhamento de Leonela, que recebe nesta casa todas as noites um namorado seu, passa com ele até ao dia; isto tanto à custa do meu crédito, quanto assim se dão azos para juízos temerários contra mim a quem vir tais saídas desta casa a horas tão desusadas. O que me rala é não a poder castigar nem ralhar-lhe, porque o ser ela confidente das nossas intimidadas me amordaça para eu calar as dela. Estou já temendo que daqui se nos haja de originar alguma desgraça grande.

 

Quando Camila começou a falar, Lotário imaginou seria aquilo artifício para lhe persuadir a ele que o vulto que vira sair pertencia à aia e não à ama; mas, vendo-a chorosa, afligida e a suplicar-lhe remédio, veio a crer na verdade e, interrogando-a mais por miúdo, acabou de ficar enleado e arrependido de tudo.

 

Contudo respondeu que não tivesse ela pena, que ele acharia modo para atalhar a insolência da serva. Disse-lhe também o mesmo que já a Anselmo havia dito, quando instigado de seus enraivecidos ciúmes; e que estava concertado que se escondesse na recâmara para dali presenciar a pouca lealdade que ela lhe guardava. Pediu-lhe perdão de tão louca lembrança, e algum alvitre sobre o modo de a remediar e sair a salvo de tão revolto labirinto, como o em que por sua má cabeça se tinha envolvido.

 

Com o que a Lotário ouviu ficou pasmada Camila, e cheia de enfado, e com conceitos judiciosíssimos lhe estranhou passos tão condenáveis e tão repreensível comportamento. Mas, como naturalmente as mulheres têm mais engenho que os homens, tanto para o bem como para o mal (ainda que em se pondo de propósito a discorrer já se lhes entra a secar a veia), logo ali de repente inventou Camila modo de se remediar uma desordem que tão sem concerto se mostrava. Disse pois a Lotário que diligenciasse para que Anselmo se escondesse outro dia onde ele se tinha lembrado, e que ela saberia tirar desse escondimento comodidade para ficarem daí avante os seus tratos sem nenhum perigo; e sem lhe declarar a sua idéia toda lhe advertiu que tivesse cuidado, em sabendo que Anselmo estava escondido, de vir ele apenas Leonela o chamasse, e a quanto ela lhe dissesse lhe respondesse como responderia ainda que não soubesse que Anselmo era à escuta.

 

Teimou Lotário em desejar saber o resto da armadilha, porque assim com mais segurança e acerto cumpriria ele da sua parte tudo que fosse necessário.

 

— Nada mais é preciso — disse Camila — do que responder-me pontualmente às minhas perguntas.

 

Não estava resolvida a dar-lhe conta antecipada do seu projeto, por temer que ele reprovasse o que tão conveniente lhe parecia a ela, e antepusesse outros de menos probabilidades.

 

Não replicou e partiu Lotário; e no dia seguinte Anselmo, com o pretexto de ir à aldeia do seu amigo, abalou; mas tornando atrás sem demora, se foi homiziar no seu valhacouto, o que lhe foi sobremodo fácil em razão do azo que para isso mesmo lhe proporcionaram a ama e a criada.

 

está pois alapado Anselmo com aquele sobressalto que bem se pode imaginar em quem está para ver por seus olhos as próprias entranhas da sua honra postas em escalpelos de anatomia. Em poucos instantes se lhe podia ir a pique o sumo bem que ele pensava ter na sua Camila.

 

Seguras e certas já de terem o caçador à espreita do coelho, entraram na recâmara; mal pôs nela o primeiro pé, exclamou com um grandíssimo suspiro Camila:

 

— Ai, Leonela amiga! não seria melhor que antes de eu pôr em execução o que não quero que saibas para mo não estorvares, pegasses na daga de Anselmo que te pedi, e me atravessasses com ela este peito infame? mas não, não o faças; fora injusto ser eu punida dum crime alheio. Antes de tudo, tomara saber o que descobriram em mim os atrevidos e desonestos olhos de Lotário, para se arrojar a patentear-me desejos tão perversos em menoscabo do seu amigo, e em meu vilipendio. Chega a essa janela, rapariga, que ele deve por força estar já na rua à espera; mas primeiro que ele cumpra o seu ímpio desejo, cumprirei eu o meu, que é, sim, cruel, mas que para a honra já se não pode dispensar.

 

— Ai, senhora minha! — respondeu a esperta Leonela senhora do seu papel — que deseja fazer com esta daga? quer-se matar? ou quer matar a Lotário? Uma ou outra coisa só servira de a desacreditar. Acho melhor que dissimule a injúria, e não consinta que o mau homem entre agora nesta casa e nos ache sós; lembre-se, senhora, de que somos duas fracas mulheres, e ele é homem, e atrevido. Como vem com aquela má tenção, apaixonado e cego, talvez [antes] que a senhora execute o que medita, ultimará ele o que é mais de temer que a própria morte. Mal haja meu amo, o senhor Anselmo, que tantas largas deu em casa àquele sem medo nem vergonha. Dou que o mate, como desconfio será a sua resolução, que havemos de fazer dele depois de morto?

 

— Que havemos de fazer? — respondeu Camila — deixá-lo-emos, e o meu marido que o enterre; deve-lhe ser delicioso o trabalho de sepultar a sua própria infâmia. Chama-o, chama-o, avia; quanta demora ponho em vingar-me, já me parece uma quebra na minha lealdade de esposa.

 

Tudo isto escutava Anselmo; e a cada palavra de Camila sentia irem-se-lhe os pensamentos transformando. Quando porém ouviu que estava resolvida a matar o seu amigo, deu-lhe um ímpeto de sair e descobrir-se para evitar a catástrofe; mas teve-lhe mão o desejo de ver em que parar ia tão galharda e honesta resolução, com propósito de sair a tempo de lhe pôr cobro.

 

Nisto caiu Camila com um terrível desmaio para cima duma cama que ali estava. Leonela começou a carpir-se e a dizer:

 

— Ai desditada de mim! se agora me expira nos braços a flor da honestidade do mundo! a coroa das mulheres honradas! o exemplo da castidade!

 

E como estas, outras exclamações, que todos os que lhas ouvissem a teriam pela mais lastimada e mais leal de todas as aias, e à ama por outra e perseguida Penélope.

 

Pouco tardou que esta volvesse em si do seu delíquio, e entrasse logo a exclamar:

 

— Que te demoras, Leonela, em ir chamar ao mais desleal amigo de quantos viu a Rosa divina, de quantos a noite nunca favoreceu? Acaba, corre, avia, caminha, não deixes que se esfrie com a tardança a raiva com que estou, e se esvaia em ameaças e maldições a justa vingança que aguardo.

 

— Já o vou chamar, senhora minha — disse Leonela — mas dê-me primeiro essa daga, tenho medo dessa cabeça quando se vir só, que não faça algum desatino que se haja de chorar toda a vida entre os que lhe queremos bem.

 

— Vai, não tenhas medo, minha Leonela, não hei-de fazer nada — respondeu Camila — porque, ainda que sou temerária e párvoa em teu conceito, em acudir por minha honra não o hei-de ser tanto como aquela Lucrécia que se matou, segundo dizem, sem ter cometido delito algum, e sem ter primeiro traspassado o peito ao causador da sua desgraça. Se eu morrer, morro vingada de quem me obrigou a vir a este sítio chorar os seus atrevimentos nascidos tão sem culpa da minha parte.

 

Fez-se Leonela muito de rogar antes que saísse a chamar Lotário; mas enfim sempre saiu. Enquanto se demorava, ficou dizendo Camila, como quem falava entre si e sem testemunhas:

 

— Valha-me Deus! não fora mais acertado ter despedido Lotário, como tantas outras vezes o fiz do que autorizá-lo com este chamamento a ter-me por desonesta e má, pelo menos enquanto não chego a desenganá-lo? Decerto que era melhor; mas eu é que ficava sem me vingar, e a honra de meu marido sem satisfação; não quero que saia tão às mãos lavadas e seguro de si, como há-de para aqui entrar com as suas danadas tenções; os desejos do traidor só com a vida se podem pagar. Saiba o mundo (se isto chega a transpirar) que a pobre Camila não só zelou a fidelidade que ao seu esposo devia, senão que até o desagravou de quem se abalançava a querer ofendê-lo. Não sei, não sei, senão seria melhor dar conta de tudo a Anselmo. Eu já tinha começado a preveni-lo na carta que lhe escrevi para a aldeia, e imagino que o não ter ele acudido ao mal que eu lhe apontava, ainda que por alto, só foi efeito do seu gênio leal e confiado; devia-lhe parecer impossível que um amigo fosse jamais capaz de tamanha aleivosia; nem eu mesma também o acreditei por muitos dias, nem o acreditaria nunca, se não fora ter a sua insolência ultrapassado os limites. As dádivas, as promessas, e as lágrimas contínuas ainda me não pareciam provas bastantes. Mas que valem agora todas estas reflexões? uma resolução magnânima não carece de estímulos. Fora, traidor! a mim, vingança! entre o falso, venha, chegue, morra, acabe, suceda o que suceder. Pura entrei para o poder do que o céu me destinou; pura hei-de sair dele; quando muito, banhada no meu casto sangue, e no sangue peçonhento do mais refalsado amigo de quantos nunca houve em todo o mundo.

 

Dizia isto passeando, girando pela sala com a daga nua, e com uns passos tão descompostos, e fazendo uns meneios e gestos, que não parecia senão alienada. Ninguém dissera ser dama fina; lembrava um rufião fora de si.

 

Tudo aquilo notava Anselmo detrás das armações, e de tudo se admirava. Já lhe parecia que no que vira e ouvira havia satisfação de sobra até para maiores suspeitas; já quisera até que Lotário não viesse, para se evitar ali alguma tragédia. Estava já para manifestar-se e abraçar a enganada esposa, quando se deteve ao aparecer Leonela com Lotário pela mão.

 

Mal pôs nele os olhos Camila, fez com a daga um risco pelo sobrado em frente de si, e exclamou:

 

Lotário, repara bem no que te digo: se te atreveres a passar esta raia, ou mesmo a chegar a ela, no mesmo instante me atravesso com este ferro. Antes que abras os lábios, escuta-me poucas palavras mais. Em primeiro lugar, quero que me digas se conheces a Anselmo meu marido, e em que opinião o tens; e, em segundo lugar, pergunto-te se me conheces a mim. Responde-me a isto e não te perturbes, nem te demores a pensar: ambas estas perguntas são fáceis.

 

Não era Lotário tão lerdo, que desde que ela lhe dissera que fizesse esconder Anselmo, não adivinhasse em cheio quais eram as suas intenções; por isso representou logo a sua parte com a maior naturalidade, e a mentirosa cena dos dois deixou a perder de vista a verdade mesma.

 

— Não pensei eu, formosa Camila, que me chamáveis para me fazer perguntas tão avessas aos intentos com que eu vinha. Se o fazeis para me demorardes a prometida recompensa, podíeis ter-me para isso preparado com mais antecipação. O bem que se deseja degenera em tormento, quando inopinadamente se nos afasta; mas para não parecer que tardo em responder-vos, digo que sim, conheço ao vosso esposo Anselmo; conhecemo-nos os dois desde os nossos mais tenros anos; não quero acrescentar a isto o que vós mesma sabeis deste mútuo afeto; fora tornar-me testemunha eu mesmo do agravo que o amor me está obrigando a fazer-lhe, o amor que até maiores erros desculparia. A vós, Camila, também vos conheço, e aprecio-vos como ele vos aprecia; a não ser assim, nunca eu por méritos inferiores aos vossos iria contra o que devo a mim mesmo e aos santos ditames da amizade, ditames ou leis que neste momento estou violando forçado desta paixão despótica.

 

— Se tudo isso confessas — respondeu Camila — ó inimigo mortal de quanto merece ser amado, como te atreves a aparecer diante de quem sabes ser o espelho em que se mira aquele, em quem tu mesmo te deveras mirar, para reconheceres que és um monstro quando pretendes agravá-lo? Agora me lembro, triste de mim!: o que te faria faltar ao respeito de ti mesmo havia de ser algum descuidado desalinho meu (que não quero chamar-lhe desonestidade); sim, alguma irrefletida falta de compostura, que por acaso me enxergarias; daquelas que nós outras as mulheres podemos inocentemente cometer quando cuidamos não ser vistas. Se não, dize-me: quando jamais correspondi eu, alma traidora, aos teus rogos com palavra ou sinal que animasse os teus infames desejos? quando é que eu deixei de repelir desabrida as tuas finezas? quando cri nas tuas promessas, ou aceitei as tuas dádivas? Mas como entendo que ninguém pode teimar em pretensões amorosas, sem que alguma esperança lhe negaceie, quero imputar-me a mim mesma a origem da tua impertinência. Por força algum descuido meu deve ter alimentado por tanto tempo as tuas loucas esperanças; sendo assim, quero-me castigar da tua culpa. Para veres que, sendo eu tão rigorosa contra mim, não podia deixar de o ser contigo, quis trazer-te a ser testemunha do sacrifício que vou fazer para aplacar a honra do meu virtuosíssimo esposo ultrajado por ti no mais alto ponto, e a minha também, por te haver dado alguma ocasião (se é que ta dei) para alimentares tal delírio. Torno-te a dizer que o que mais me aflige é lembrar-me que todos esses desvairados pensamentos te poderiam nascer de algum involuntário descuido meu; é esse o que eu mais desejo castigar por minha própria mão. Se o meu verdugo fosse outro, ficaria talvez mais patente a minha culpa. Antes porém de cometido o ato irrevogável, quero matar a quem me causou a morte, quero levar comigo quem me sacie esta ânsia de vingança que já tenho segura, vendo lá, nessas regiões quaisquer, aonde eu for, a pena que dá a justiça desinteressada e inflexível ao que me arrastou a esta desesperação.

 

Proferidas estas palavras com uma volubilidade e força extraordinária, arremeteu a Lotário com a daga desembainhada, com tais mostras de lha querer cravar no peito, que ele mesmo esteve quase em dúvida se aquilo seria fingido ou verdadeiro, porque lhe foi forçoso valer-se de toda a sua destreza e força para se livrar do golpe. Camila tão ao natural representava todo aquele fingimento, que, para lhe dar mais cor de verdade, o quis rubricar com o seu próprio sangue, porque, vendo que não podia alcançar a Lotário, ou fingindo que o não podia, disse:

 

— Já que a sorte não deixa que o meu justo desejo se satisfaça em cheio, pelo menos nunca há-de poder tanto, que me vede em cheio satisfazê-lo.

 

E forcejando para soltar a daga, que Lotário lhe tinha presa, arrancou-lha com efeito, e, dirigindo-lhe a ponta para parte onde a ferida não viesse a ser muito perigosa, cravou-a entre o peito e o sovaco esquerdo, deixando-se logo cair no pavimento como desmaiada.

 

Estavam Leonela e Lotário pasmados do que viam, e todavia duvidosos ainda entre crer e descrer, apesar de verem Camila estendida em terra, e banhada no seu sangue. Acode Lotário açodado e espavorido, e quase sem alento, a arrancar a daga; mas, reconhecendo a pequenez da ferida, respirou, ficando a admirar cada vez mais a sagacidade, a prudência e a extraordinária discrição da sua Camila; e para representar também o seu papel, começou a fazer uma estirada lamentação sobre o corpo da formosa, como se estivera defunta, soltando muitas maldições não só contra si, mas também sobre quem a havia obrigado àqueles extremos. Como sabia que o escutava o amigo Anselmo, coisas dizia que mais dó faziam dele próprio, do que dela, ainda que a julgassem morta.

 

Leonela tomou-a nos braços, e a pôs no leito, rogando a Lotário fosse buscar facultativo que viesse curar secretamente a doente. Consultava-o também sobre o que haviam de dizer a Anselmo daquele golpe de sua ama, se ele viesse antes dela curada. Lotário respondia que fizessem o que lhes parecesse, que ele por si não estava com cabeça para acertar conselhos; que só lhe dizia que se desse pressa em vedar-lhe o sangue, porque ele ia fugir para onde ninguém o visse; e, com mostras da maior consternação, saiu.

 

Logo que se achou só, e onde ninguém o podia ver, não fazia senão benzer-se, maravilhado da esperteza de Camila, e dos modos tão apropriados de Leonela. Regalava-se, considerando quão inteirado não ficaria Anselmo de que tinha por mulher uma segunda Pórcia; já lhe tardava o tornarem a ver-se juntos, para festejarem entre si a mentira e a verdade, mais bem caldeadas uma com a outra, do que jamais se pudera imaginar.

 

Leonela, que tinha já vedado o sangue da ama, sangue que não passava do indispensável para crédito do embuste, lavou a ferida com um pouco de vinho, e a ligou o melhor que soube, dizendo, enquanto a estava curando, coisas, que só por si, ainda que mais precedentes não houvera, bastariam para capacitar Anselmo de que possuía em casa uma verdadeira estátua da honestidade. Com as palavras de Leonela travavam outras de Camila, chamando-se covarde e pusilânime, pois lhe faltara o valor quando mais precisava dele, para destruir uma existência que tanto lhe pesava. Pedia à serva o seu parecer sobre dizer ou calar todo aquele sucesso ao marido. A serva respondia-lhe que lhe não dissesse nada, porque dizer-lho era pô-lo em obrigação de vingar-se de Lotário, o que lhe seria muito arriscado, e que toda a mulher capaz estava obrigada a não dar ao seu homem ocasiões para desavenças, antes lhas devia esconder todas.

 

Respondeu a senhora que lhe parecia muito bem esse voto, e o seguiria; mas que, em todo o caso, era necessário ver o que se diria a Anselmo sobre a causa daquela ferida, que ele forçosamente havia de ver. A isso respondia Leonela que lá para mentiras fossem bater a outra porta, que ela por si nem por brinco a tal se ajeitava.

 

— E eu então? — respondeu Camila — eu que nem para salvar a vida me parece que saberia desfigurar a verdade? O melhor será, segundo entendo, confessarmos-lhe tudo tal qual, do que sujeitarmo-nos a poder ficar por embusteiras.

 

— Sossegue, minha senhora; de hoje até amanhã — respondeu Leonela — eu excogitarei o que lhe havemos de dizer, e talvez que a ferida, por ser onde é, se lhe possa recatar; o céu há-de nos ajudar, em atenção a serem os nossos motivos tão justos e honrados. Descanse, descanse, e faça por aquietar esses temores, que poderiam sobressaltar a meu amo; e o mais, torno a dizer, deixe-o à minha conta e à de Deus, que nunca falta a quem deseja o bem.

 

Atentíssimo se tinha conservado Anselmo a escutar a representação tragicômica da morte da sua honra, representação tão bem improvisada, que todas as personagens pareciam mais que verdadeiras. Estava suspirando pela noite para sair de sua casa, e ir ter com o seu bom amigo Lotário, congratulando-se com ele de ter achado na mulher a margarida preciosa.

 

Tiveram as duas cuidado em lhe dar vaga para a saída.

 

Mal que chegou ao amigo, não há contar os abraços com que o apertou, os escarcéus que fez da sua felicidade e das virtudes de Camila, o que tudo Lotário lhe esteve ouvindo sem o mínimo sinal de alegria, por se lhe estar dentro revolvendo o remorso de tão cego andar o pobre homem. Ainda que Anselmo bem via aquela frieza no amigo, supunha ser efeito de ter deixado a Camila ferida, e por causa dele; pelo que entre outras coisas lhe disse que não tivesse cuidado pelo acontecido, porque o golpe era por certo muito leve; e tanto, que as duas tinham combinado em encobri-lo do próprio marido; logo não havia de que temer. Dali em diante era alegrarem-se e divertirem-se ambos a bom levar, pois por sua industriosa cooperação tinha enfim atingido nas suas relações conjugais o ápice da ventura; que já agora o único emprego do tempo seria para ele fazer versos em honra e louvor de Camila, para ficar lembrando em todos os séculos.

 

Aprovou Lotário com elogios tão boa determinação, e disse que por sua parte estava pronto para ajudá-lo a erigir-lhe tão merecido monumento. Em suma: ficou sendo desde aquela hora Anselmo o homem mais deliciosamente logrado de todo o mundo. Levava ele próprio por sua mão para sua casa, cuidando levar o artífice da sua glória, o destruidor de toda a sua fama. Recebia-o Camila com semblante ao parecer torcido, mas com alma risonha.

 

Algum tempo durou este engano, até que, passados poucos meses, a fortuna desandou a roda, e saiu à praça a maldade com tamanho artifício encoberta até então, e a Anselmo veio a custar a vida a sua impertinente curiosidade.

 

Fonte: https://pt.wikisource.org/wiki/Dom_Quixote/.

 

Fonte da imagem: https://lecturadialogica.blogspot.com/2016/09/el-curioso-impertinente-un-cuento-del.html.

 

 

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