Contos Escritos de Amigos

Quem manda no mundo?, de Noam Chomsky.

 

Quem manda no mundo x Noam Chomsky

Quem manda no mundo?

Noam Chomsky

(Editora Crítica, tradução de Renato Marques, São Paulo, 2018)

 

Introdução

 

A pergunta suscitada pelo título deste livro não pode ter uma resposta simples, exata e definitiva. O mundo é variado demais, complexo demais para que isso seja possível. Mas não é difícil reconhecer as agudas diferenças no que tange à capacidade de moldar os assuntos e as questões do mundo, e não é difícil identificar os atores mais proeminentes e influentes.

Na comparação entre os países, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América firmaram-se como o primeiro entre os desiguais, condição em que ainda permanecem. Em larga medida o país ainda hoje estabelece os termos do discurso global numa abrangente gama de problemáticas questões que se estende de Israel-Palestina, Irá, América Latina, "guerra ao terror", organização econômica internacional, direitos e justiça e outros temas afins aos mais primordiais pontos do debate relativo à sobrevivência da civilização (guerra nuclear e destruição ambiental). O poder dos EUA, no entanto, vem diminuindo depois de ter atingido um historicamente inaudito ápice em 1945. E, com o inevitável declínio, o poder de Washington é até certo ponto compartilhado no âmbito do "governo mundial de facto" dos "mestres do universo", para tomar de empréstimo os termos do jornalismo econômico-em referência às maiores potências capitalistas, o grupo dos sete países mais ricos e industrializados [7] do mundo (os integrantes do G7), juntamente com as instituições que eles controlam na "nova era imperial", tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as organizações de comércio global.

É claro que os "mestres do universo" estão muito longe de ser representativos das populações das potências dominantes. Mesmo nos Estados mais democráticos, as populações exercem um impacto apenas limitado acerca de diretrizes políticas. Nos Estados Unidos, pesquisadores renomados forneceram evidências contundentes de que "elites econômicas e grupos organizados representantes de interesses comerciais causam substanciais impactos independentes sobre as políticas governamentais dos EUA, ao passo que cidadãos comuns e grupos de interesse de massas exercem pouca ou nenhuma influência independente". Os resultados de seus estudos, concluem os autores, propiciam substancial sustentação a teorias de Dominação da Elite Econômica e Teorias de Pluralismo Tendencioso, mas não para teorias de Democracia Eleitoral Majoritária ou Pluralismo Majoritário". Outros estudos já demonstraram que a ampla maioria da população na ponta mais baixa do espectro de renda/ riqueza, é efetivamente excluída do sistema político, suas opiniões e atitudes são ignoradas por seus representantes formais, ao passo que um ínfimo setor que ocupa o topo da escala tem um grau de influência esmagador. Esses estudos também apontaram que, no decorrer de um longo período, o financiamento de campanha é um extraordinário previsor das decisões políticas.

Uma consequência é a assim chamada apatia: supostamente as pessoas não se dão ao trabalho de votar e se autoexcluem das eleições. Isso tem uma significativa correlação com a classe social. As prováveis razões já foram discutidas 35 anos atrás por uma das maiores autoridades acadêmicas em política eleitoral, Walter Dean Burnham. O cientista político relacionou a abstenção a "uma importantíssima decisiva peculiaridade comparativa do sistema político estadunidense: a total ausência de um partido político de massa socialista ou trabalhista como um competidor organizado no mercado eleitoral”,  o que, argumentou ele, explica boa parte das "taxas de abstenção enviesadas por classe"', bem como a minimização e subestimação [8] opções de propostas políticas que podem ser apoiadas pela população em geral mas se contrapõem aos interesses das elites. As observações se estendem ao presente. Numa minuciosa análise da eleição de 2014, Burnham e Thomas Ferguson mostram que os índices de comparecimento às urnas "lembram os primeiros anos do século xIx", quando os direitos de voto restringiam-se praticamente aos homens livres e proprietários de terras. Os autores concluem que "tanto as evidências do número total de votos diretos como o senso comum confirmam que um imenso contingente de norte-americanos agora está ressabiado com os dois principais partidos políticos e cada vez mais aborrecido com as perspectivas de longo prazo. Muitos estão convencidos de que uns poucos e graúdos interesses controlam a política. Eles anseiam por uma ação efetiva que reverta o declínio econômico e a desenfreada desigualdade econômica, mas nada na escala exigida lhes será oferecido por nenhum dos dois maiores e mais expressivos partidos políticos dos EUA, ambos movidos por dinheiro. É provável que isso acelere somente a desintegração do sistema político, como ficou evidente nas eleições para o Congresso em 2014".

Na Europa, a derrocada da democracia não é menos impressionante, à medida que a tomada de decisões sobre questões cruciais foi transferida para a burocracia de Bruxelas e as potências financeiras que ela representa. Seu desprezo pela democracia ficou patente na selvagem reação, em julho de 2015, à ideia de que o povo grego pudesse ter uma voz para determinar o destino de sua sociedade, estraçalhada pelas brutais políticas de austeridade da troika – Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e FMI (especificamente os atores políticos do FMI, não seus economistas, bastante críticos das políticas destrutivas). Essas políticas de austeridade foram impostas com o objetivo declarado de reduzir a dívida grega. E, a bem da verdade, aumentaram a dívida com relação ao Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a tessitura social grega foi despedaçada, e a Grécia serviu como um funil para enviar socorro financeiro aos bancos franceses e alemães que fizeram empréstimos de risco.

Há poucas surpresas aqui. A luta de classes, caracteristicamente

unilateral, tem um longo e amargo histórico. No alvorecer da era dos [9] modernos Estados capitalistas, Adam Smith condenou os "mestres da humanidade" de seu tempo, os "mercadores e industriais" da Inglaterra, que eram "de longe os principais arquitetos" da política, e que fizeram questão de garantir que seus interesses fossem "atendidos de forma mais especial", a despeito dos "atrozes" efeitos sobre outros povos (principalmente as vítimas da "selvagem injustiça" no exterior, mas também sobre boa parte da população da Inglaterra). A era neoliberal da última geração acrescentou seus próprios toques a esse retrato clássico, com os mestres figurando nos mais altos escalões de economias cada vez mais monopolizadas, as gigantescas e muitas vezes predatórias instituições financeiras, as multinacionais protegidas pelo poder estatal e as figuras políticas que representam largamente seus interesses.

Nesse ínterim, raramente passa um dia sem que haja novos relatos de agourentas descobertas científicas sobre o ritmo acelerado da destruição ambiental. Não é nada confortável ler que "nas latitudes intermediárias do hemisfério Norte as temperaturas médias vêm aumentado a uma taxa equivalente a um deslocamento para o sul de cerca de 10 metros (30 pés) por dia"', um índice "aproximadamente cem vezes mais rápido que a maioria das alterações climáticas que podemos observar nos registros geológicos" - e talvez mil vezes mais rápido, de acordo com outros estudos técnicos.

Não menos sombria é a crescente ameaça de guerra nuclear. O bem informado ex-secretário de Defesa dos EUA, William Perry, que não é nenhuma Cassandra, considera que "a probabilidade de uma calamidade nuclear [é] mais alta hoje" que durante a Guerra Fria, quando escapar do desastre inimaginável beirava um milagre. Nesse meio-tempo as grandes potências continuam investindo obstinadamente em seus programas de "insegurança nacional", na apropriada expressão do analista de longa data da Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency - CIA, na sigla em inglés) Melvin Goodman. Perry também é um daqueles especialistas que recorreram ao presidente Obama para "extinguir o novo míssil de cruzeiro", uma arma nuclear com sistema de mira aperfeiçoado e poder de explosão mais baixo que poderia fomentar uma "guerra nuclear limitada", que  [10] rapidamente se agravaria e se intensificaria por dinâmica familiar até descambar no completo e absoluto desastre. Pior ainda, o novo míssil tem versões nucleares e não nucleares, de modo que um "inimigo sob ataque poderia supor o pior e reagir de maneira exagerada, iniciando a guerra atômica". Mas há pouca razão para esperar que alguém de ouvidos ao conselho, uma vez que os planos de trilionário incremento dos sistemas de armamentos nucleares do Pentágono prosseguem a passadas largas, enquanto as potências menores dão seus passos rumo ao apocalipse.

Os comentários anteriores parecem-me esboçar uma razoável estimativa do elenco de personagens principais. Os capítulos que se seguem buscam examinar a questão de quem comanda o mundo, o modo como procede em seus esforços e para onde seu empenha leva - e, ainda, como as "populações subjacentes"', para utilizar a útil expressão de Thorstein Veblen, podem ter esperança de sobrepujar o poder dos negócios e a doutrina nacionalista de maneira a se tornar, nas palavras dele, "vivas e aptas a viver"

Não resta muito tempo. [11]

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